segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Obesidade mórbida: Goiás não faz cirurgia pelo SUS

                   Estado não tem hospital credenciado para a realização do procedimento.
 
Rondônia, Pa­raíba, Goiás, Ama­zonas, Acre, Ro­raima e Piauí são os Es­tados que ainda não têm hos­pi­tais cre­den­ci­ados para fazer a ci­rurgia ba­riá­trica pelo Sis­tema Único de Saúde (SUS). É o que aponta le­van­ta­mento da So­ci­e­dade Bra­si­leira de Ci­rurgia Ba­riá­trica e Me­ta­bó­lica (SBCBM).
O Mi­nis­tério da Saúde re­duziu de 18 para 16 anos a idade mí­nima para re­a­li­zação da ci­rurgia na rede pú­blica, nos casos em que há risco de morte para o pa­ci­ente. De acordo com co­mu­ni­cado da pasta, a de­cisão foi to­mada com base em es­tudos que apontam o au­mento da obe­si­dade entre ado­les­centes. Dados da Pes­quisa de Or­ça­mentos Fa­mi­li­ares de 2009 (POF) in­dicam que, na faixa de 10 a 19 anos, 21,7% dos bra­si­leiros apre­sentam ex­cesso de peso. Em 1970, o ín­dice era 3,7%.
De acordo com o Mi­nis­tério da Saúde, existem 80 uni­dades ha­bi­li­tadas no País, porém não in­formou se pre­sentes em todos os Es­tados. Ainda se­gundo a pasta, para ha­bi­litar novos ser­viços de As­sis­tência de Alta Com­ple­xi­dade ao Por­tador de Obe­si­dade Grave, o gestor local deve or­ga­nizar e im­plantar linha de cui­dados ao pa­ci­ente obeso, pro­ce­di­mento que está sob con­sulta pú­blica. Os hos­pi­tais, in­clu­sive os cre­den­ci­ados, terão um ano para se adaptar aos novos cri­té­rios.
Para Irineu Ra­sera, ci­rur­gião e gestor do Hos­pital dos For­ne­ce­dores de Cana-de-Açúcar de Pi­ra­ci­caba e membro da SBCBM, o go­verno deve criar um ca­dastro único para can­di­datos à ci­rurgia ba­riá­trica e também au­to­rizar a vi­de­o­la­pa­ros­copia, que é uma forma menos in­va­siva de in­ter­venção.
Atu­al­mente, o SUS au­to­riza três téc­nicas: a gas­tro­plastia com de­ri­vação in­tes­tinal; a gas­trec­tomia com ou sem desvio du­o­denal; e a gas­tro­plastia ver­tical em banda, que será subs­ti­tuída por apre­sentar sig­ni­fi­ca­tivo ín­dice de novo ganho de peso pelo pa­ci­ente. No lugar desse pro­ce­di­mento, está pre­vista a in­clusão da gas­tro­plastia ver­tical em manga (sleeve).
Quanto aos novos exames au­to­ri­zados pelo mi­nis­tério, Ra­sera acre­dita que serão van­ta­josos se “vi­erem como apenas uma pos­si­bi­li­dade, mas se for obri­ga­tório é pre­o­cu­pante”. Ele ex­plica que nem todos os pa­ci­entes pre­cisam passar pelos novos, o que pode atrasar a exe­cução da ci­rurgia.
Ro­sana Ra­do­minski, en­do­cri­no­lo­gista da As­so­ci­ação Bra­si­leira para o Es­tudo da Obe­si­dade e da Sín­drome Me­ta­bó­lica (Abeso), acre­dita que a mu­dança na idade mí­nima é po­si­tiva. “Esta mo­di­fi­cação vai fazer toda a di­fe­rença para os ado­les­centes. Se for caso ci­rúr­gico, ele não vai ter que es­perar dois longos anos para ter uma re­dução con­si­de­rável de peso.”
Ela alerta para os cui­dados nos casos dos ado­les­centes. “Eu acho que o grupo pre­cisa de uma equipe mul­ti­dis­ci­plinar, porque ele pre­cisa ter um bom en­ten­di­mento sobre o pro­ce­di­mento, pre­cisa de ma­tu­ri­dade para en­tender o tra­ta­mento pós-ci­rurgia. Eles têm a vida pela frente e têm que en­tender, por exemplo, as res­tri­ções de ali­men­tação”.
Sobre a proi­bição da venda e uso de ini­bi­dores de ape­tite an­fe­ta­mí­nicos, Ro­sana Ra­do­minski acre­dita que a re­ti­rada desses pro­dutos do mer­cado não é causa do au­mento de obesos, mas des­taca que os me­di­ca­mentos fazem falta para al­guns grupos de pa­ci­entes. “No Brasil, tem aquele grupo de pa­ci­entes que perdem peso com dieta e ati­vi­dade fí­sica, tem aquele grupo que vai fazer ci­rurgia ba­riá­trica e tem aquele grupo, no meio, que não con­segue ema­grecer com dieta e nem tem in­di­cação para ci­rurgia. Esses pa­ci­entes fi­caram de­sas­sis­tidos. Aqueles que já ti­nham um bom re­sul­tado com o tra­ta­mento (com os re­mé­dios ve­tados) com a sus­pensão fi­caram sem o re­médio. Não se tem uma outra opção por en­quanto. Ti­raram e não deram uma outra opção,” ar­gu­mentou.
Há oito anos, a pro­fes­sora apo­sen­tada Edna Araújo de­cidiu se sub­meter a uma ope­ração de re­dução de estô­mago por causa de um pro­blema de pressão alta. De­pois da ci­rurgia, a fa­mília de Edna teve papel fun­da­mental no pe­ríodo de adap­tação.“Os mais pró­ximos vão cuidar para que você não coma nada além do que é per­mi­tido e ob­servar o de­sen­vol­vi­mento de com­por­ta­mentos es­tra­nhos, como uma com­pulsão. Al­guns pa­ci­entes trocam a co­mida por ou­tros ví­cios, como o ál­cool. Ou­tros burlam a dieta e tomam leite con­den­sado pelo ca­nu­dinho”, conta.
A pro­fes­sora ainda re­latou que um dos obs­tá­culos é se cons­ci­en­tizar que pre­cisa comer menos. “Um gordo vai sempre pensar como um gordo. Quando um gordo pensa em comer al­guma coisa, ele pensa numa massa de­li­ciosa com um molho, em um chur­rasco, não pensa em uma sa­lada. Quando você vai se servir, tem que lem­brar a quan­ti­dade re­co­men­dada por um nu­tri­ci­o­nista. Senão vai passar mal”, ad­vertiu Edna.
Planos de saúde
O agen­da­mento de con­sulta mé­dica e a au­to­ri­zação para ci­rurgia ba­riá­trica (gas­tro­plastia) são os pro­ce­di­mentos mais re­cu­sados pelos planos de saúde nos úl­timos três anos, aponta o Ins­ti­tuto Bra­si­leiro de De­fesa do Con­su­midor (Idec). Joana Cruz, ad­vo­gada do Idec, es­pe­ci­a­lista em saúde su­ple­mentar, disse que esse pro­blema é só a “ponta do ice­berg”.
A Agência Na­ci­onal de Saúde Su­ple­mentar (ANS) listou, no úl­timo dia 2, 301 planos de saúde que ti­veram sua co­mercia- li­zação sus­pensa. Eles não vi­nham cum­prindo os prazos de agen­da­mento para con­sultas. “O que acon­tece é que as ope­ra­doras que foram sus­pensas não des­cum­priram o prazo uma vez ou outra, elas des­cum­priram rei­te­ra­da­mente”, de­clarou a ad­vo­gada do Idec.
A ANS acon­selha o con­su­midor que não con­se­guir, dentro do prazo má­ximo pre­visto, agendar um aten­di­mento ou obter uma al­ter­na­tiva com a ope­ra­dora do plano, a anotar o nú­mero de pro­to­colo do pe­dido. O do­cu­mento ser­virá como com­pro­vante da so­li­ci­tação feita.
“Se não existir um es­pe­ci­a­lista no mu­ni­cípio do con­su­midor, a ope­ra­dora deve pro­por­ci­onar outro mé­dico, mesmo que não seja cre­den­ciado, ou um pro­fis­si­onal de outro mu­ni­cípio, ar­cando com o trans­porte do be­ne­fi­ciário”, ex­plicou Joana. De acordo com ela, o con­su­midor que não tiver a sua so­li­ci­tação aten­dida tem que de­nun­ciar o plano à ANS.
Para quem vai con­tratar um plano de saúde, Joana Cruz ori­enta fazer uma pes­quisa no site da agência. “Com o nome ou re­gistro (da ope­ra­dora), o con­su­midor con­segue, no site da ANS, o status da co­mer­ci­a­li­zação do plano e o ín­dice de re­cla­mação dos con­su­mi­dores”, de­clarou. Se­gundo a ad­vo­gada do Idec, se o con­su­midor, na sua pes­quisa, cons­tatar que o plano está com a co­mer­ci­a­li­zação sus­pensa, deve de­nunciá-lo para a ANS.
“É im­por­tante que o con­su­midor, além de pro­curar re­solver a questão com as ope­ra­doras, o Procon ou o Poder Ju­di­ciário, também pro­cure a ANS, para que a base de dados da agência possa ficar mais pró­xima da re­a­li­dade e as em­presas em de­sa­cordo com a le­gis­lação possam ser res­pon­sa­bi­li­zadas também ad­mi­nis­tra­ti­va­mente pela agência re­gu­la­dora”, ori­entou.

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